domingo, 20 de fevereiro de 2011

Integral Full tang by Serapião - Alguma ajuda com a pinagem da Tang!!!!

Amigos,

Terminei recentemente uma nova faca integral. Desta feita uma "integral full tang". Como já demonstrei o que seria uma "faca integral" no post anterior... Vou me furtar a maiores explicações. A diferença mais marcante entre a integral full tang e a hiden tang (espiga oculta) é que na 1a o formato do cabo é definido no forjamento e seu perfil é composto pela silhueta do aço recoberto por talas. Acredito que as integrais full tang são as peças de aço carbono que mais habilidade quererem do forjador para serem levadas a termo com sucesso.

A "dificuldade" neste tipo de trabalho é que, além do colarinho ter que ser preservado, a "espiga" ser conformada no forjamento ainda é imprescindível que todo o conjunto esteja bem alinhado. Só que já forjou este tipo de peça sabe da complexidade envolvida. Contudo, quando se consegue, resulta numa faca muito interessante que pode ser feita pra diversas configurações, desde camp knives, facas chef a pequenas skinners.

Um erro que, frequentemente se comete é na "pinagem" no caso das full tangs. Encontrar o local "correto" pode ser bem difícil. Uma pinagem mal-feita pode por a perder toda a elegância de um belo cabo, independentemente do material utilizado... Aqui vai uma maneira de "visulizar" as linhas do cabo e, assim, escolher com mais segurança os pontos de pinagem.
Observem:


Este é um graminho ao qual foi adaptado um ponta de vídea (daquelas usadas em tornearia). Como sabem a videa é extremamente dura e não perde sua dureza mesmo após ter sido aquecida a 1200 graus. Risca mesmo metal temperado. Então usaremos este "graminho" pra ajudar no trabalho.
Duas Facas Full tang de 5160 em Construção

Risque pra delimitar a área do cabo.

  
Com um pincel atômico preencha a área do cabo com tinta

Depois de pintada a área, use o graminho pra riscar a linha média da tang


Uma vez marcada a linha média, marque da mesma maneira usando a curva inferior do cabo. Vc verá duas curvas que se tocam em pontos de inflexão

Com estas linhas visíveis fica mais fácil escolher com segurança o local da pinagem

Garantindo a harmonia do cabo.

Esse método é válido tanto pra dois ou 3 pinos quanto pra quando se deseja executar um cabo cofin, por exemplo. Sem risco de tirar beleza e harmonia do cabo.


Ao final, a visualização ajuda, sobremaneira a encontrar os locais exatos pra "furação" da tang.


Este foi o métod que utilizei pra encontrar os pontos de pinagem na faca abaixo. Uma integral full tang de 52100 com maple estabilzado na tang e pinos de inox de 1/4"








Espero que estas modestas dicas ajudem quem, porventura, tiver alguma dificuldade na pinagem deste tipo de faca.

Obrigado por olharem e um abraço a todos.

Facas Integrais by Serapião - A "Integral Nordestina"

Caros Amigos,

 Quem acompanha a cutelaria brasileira e, com mais ênfase, a cutelaria custom deve saber que, fora do Brasil, o estilo das facas integrais brasileiras é conhecido como "brazilian style". Esssas peças foram notabilizadas a partir e principalemente do trabalho de Mestres como o Rodrigo Sfredo e Luciano Dorneles. Bem como, em seguida,  por outros grandes cuteleiros como Ricardo Vilar, Gustavo Vilar e Eduardo Berardo que também criaram peças singulares neste estilo, popularizando o conceito ao redor do Mundo.
Vejam Alguns exemplos:




Eventualmente alguém em me pergunta: "Mas o que é uma faca integral?"

Chamamos de faca integral uma faca forjada a partir de uma barra redonda (tarugo) de um diâmetro conhecido (mais usualmente usa-se 1") onde, com uma boa dose de habilidade, o forjador transforma a barra redonda em uma lâmina, "puxando" o gavião, delimitando o colarinho e conformando a espiga.
As imagens talvez ajudem a enteder melhor:

E, pra quem quiser saber em que, afinal, consiste o brazilian style????

Em resumo... os Mestres citados no topo deste post, tiveram a idéia de juntar o estilo de lâmina integral gaúcha com os cabos característicamente ergonômicos criados pelo Mestre Bill Moran Jr. (1925–2006).
Bill Moran

Na minha opinião Bill Moran foi o maior ícone da cutelaria do século XX. Dentre outras grandes contribuições à Moderna Cutelaria, Bill Moran foi o responsável direto pelo ressurgimento do "aço damasco", pelo seu desenvolvimento nos moldes atuais e por preconizar o seu uso em peças custom de excelente qualidade. Ele desenvolveu, ainda, facas com cabos ergonômicos, contrariando o que estava em moda na sua época. Ou seja, ele quebrou paradígmas, desenvolveu um estilo próprio de funcionalidade, beleza e ergonomia que ganhou adeptos e admiradores em todo o mundo e, até hoje, influencia cuteleiros neófitos como eu mesmo.
Quem desejar saber mais sobre Esse Grande Mestre pode encontrar informações aqui:
Bill Moran Jr.

MAS O QUE TUDO ISSO TEM A VER COM ESTE POST????

Bem...
Há algum tempo venho acalentanto a idéia de criar uma "Faca Integral Nordestina".
Em que pese todo o passar dos séculos da história brasileira, aqui no Nordeste a faca que preenche o imaginário popular é a boa e velha "Pexeira" conhecida de, praticamente, todo bom nordestino. Cantada em prosa, verso e de boca em boca a fama da pexeira cruzou o Brasil todo... A origem desta faca é controversa contudo, a hipótese que mais me agrada é a de que a sua ancestral direta seja a Faca Canária (conheça um pouco sobre essa faca aqui: Faca Canária



A minha expectativa era conseguir forjar com repetição, padrão e consistência uma Lâmina integral nos moldes da cutelaria custom, juntando um cabo ergonômico (à la Bill Moran) e que, ainda, tivesse a identificação visual imediata com as nossas pexeiras. O trabalho resultou nisso:





Uma faca integral de 9" forjada de uma barra redonda de 52100 de 7/8".Será um padrão que, quem estiver acompanhando o meu trabalho verá bastante daqui pra frente.
Este tipo de lâmina vai possibilitar uma grande gama de peças. Logo vou mostrar a vcs uma peça idêntica mas com cabo "emboá" caracteristicamente Nordestino. Obrigado pela paciência de lerem este post.

E um abraço a todos.

Um abraço a todos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A 2a Visita do Ian Vinhas!!!!

Caros Amigos,

Do dia 26 a 31Jan tive o prazer de receber o Amigo Ian Vinhas, pela 2a vez, em minha oficina. O Ian é de Salvador e, no ano passado, fez um workshop comigo sobre forjamento. De lá pra cá, a amizade entre nós só se fortaleceu, principalmente, devido à grande afinidade que une todos aqueles que gostam de cutelaria. Em resumo: O Ian é de casa!!!!

Ian Vinhas e Serapião - Garanhuns 30Jan2011
Eu havia planejado uma "MARTELANÇA" no final de semana de 28 a 30 de Jan. Viriam o Amigo Roberto Lisboa de Natal e mais dois colegas daki do Interior do Estado. Infelizmente o Roberto e os demais colegas não puderam vir devido a problemas administrativos que os impediram, de fato, de vir a Garanhuns nessa data. Não há problema pois são sempre bem-vindos!!!! E, afinal de contas, praticamente todo final de semana tem "martelança" lá em casa.... Mesmo só sendo um o "martelante" mas TEM!!!!

Apesar de não poder aproveitar a companhia do meu querido amigo Roberto Lisboa e demais colegas. Fomos felizes pois o Ian pode chegar na 4a. feira a Garanhuns. Apesar da minha atividade ser de "meio-período", os dias a mais disponíveis serviriam pra um novo "Estágio" dele e, possivelmente, pra construirmos algumas facas de maneira didática. A finalidade desses períodos é mostrar algumas técnicas mais "avançadas" ou, simplesmente, tirar dúvidas sobre os processos empregados na construção de facas e demais peças de cutelaria. É preferível que, pra essa etapa, o visitante já tenha algumas boas noções. Nesse caso, o Ian, além de já ter passado por um "workshop" já deu uns bons passos cuteleiros na sua oficina em Salvador. Por isso foi possível fazer uma "varredura/revisão" em todos os pontos. Desde forjamento até a construção de uma peça completa... (incluindo o tratamento pra revelar aço-damasco).


1) Forjamento:

Mesmo sem a participação dos demais colegas... Vez por outra toda oficina de cuteleiro recebe visitas...
Desta feita (na quinta-feira) e, ao mesmo tempo, enquanto trabalhávamos recebemos o Sr. Sebastião Amaral, seu filho e o meu amigo/primo Normando Barbosa (que tava pela casa com a minha filha no colo e não saiu na foto!!!) A jovem na foto é a Akemi, namorada do Ian que veio com ele.
A oficia é pequena... mas como dizemos aki: "A gente se ajeita"...
As visitas, que nunca viram uma peça sendo forjada, estavam curiosas... E, como estas tem a precedência sempre... O Ian recebeu a incubência de demonstrar o como se forja uma faca, modernamente falando:
A conversa, as visitas e o LANCHE foram muito bons... Mas não se pode perder tempo... E continuamos trabalhando:

Eu, que não sou bobo nem nada, tbm tratei de aproveitar o tempo e, também a pedido, mostrar o forjamento de uma faca que muito me agrada... Uma "pexeira" full tang (igual à "lambedeira" que postei aki a um tempo atrás)... Há outras fotos do autor forjando... Mas ficaram na máquina da Akemi. Posteriormente ponho aki a título de curiosidade...
Ao final do dia tinhamos forjado essas peças, todas de 5160 - Uma integral full tang, e duas hunters sendo uma hiden e outra full tang.
Como já disse antes, a idéia é trabalhar e, como dizia minha querida mãe: "Só se aprende a fazer, fazendo"
Então ao forjamento sucederam-se as demais etapas:
2) DESBASTE:
Visando economizar lixa a lâmina é esmerilhada antes pois a carepa é um óxido metálico muito duro. Usinar diretamente na lixadeira é um gasto desnecessário. A esmerilhadeira elétrica resolve bem esta parte

Depois da Esmirilhadeira vem a usinagem na Lixadeira... Infelizmente não fiz fotos dessa etapa. Ainda me atrapalho pra trabalhar e fotografar ao mesmo tempo... Me desculpem.

No ano passado, dentre as facas que foram forjadas no "Work Shop" estava uma Bowie. Tanto o Ian quanto eu estávamos firmes no propósito de terminar esta peça... Escolhemos um pedaço de chifre de cervo colorado, e dois pedaços de inox que seriam, respectivamente, guarda e pomo:
3) TRATAMENTO TÉRMICO:


Após a usinagem da peça, trabalhos com lima, acertar a transição do ricaço com a lâmina, fazer o "ombro" da faca e TIRAR TODOS OS RISCOS com lixa manual até 220... É A HORA DE FAZER A TÊMPERA.
Embora eu tenha forno de têmpera, praticamente 90% dos processos de têmpera que faço são na "boca" da forja. Pras facas de carbono só uso a têmpera seletiva. O meio refrigerante tanto pode ser o óleo hidráulico quanto a famosa "solução de polímeros" (vide o "causo do óleo de polímeros" neste mesmo blogue), agora, está funcionando muito bem, obrigada.

Ian "temperando" uma lâmina de aço damasco que trouxe pra construirmos uma faca

Lâmina da Bowie logo após a têmpera em óleo hidráulico
3.a) TÊMPERA:
 As lâminas grandes (mais de 8") requerem, na minha opinião, mais alguns cuidados e certa prática que as menores. Estas (as menores) podem ser aquecidas quase por inteiro com a "chama" que sai da forja. Fica mais fácil visualizar o aumento da temperatura gradualmente, até o ponto certo de resfriamento. Com lâminas maiores é preciso ter um pouco de atenção pra aquecer, primeiramente, a parte do gavião, pois nessa região o ricaço "rouba" calor rapidamente e, quando esta parte da faca estiver aquecida passar a colocar toda a faca no interior da forja, lembrando que a ponta SEMPRE aquecerá mais rapidamente que o restante da lâmina.... na hora certa, mergulha-se toda a faca no óleo.... Se o processo for feito corretamente a linha de têmpera já será visível na peça logo após tirá-la do óleo. Lava-se a peça, retirando todo o óleo e, em seguida,  passa-se para o

3.b) REVENIMENTO:
O revenimento é uma etapa crucial do tratamento térmico. Embora algumas pessoas possam achar que esta etapa é dispensável. NÃO É!!! Este processo é responsável por reduzir a dureza da peça e aumentar sua tenacidade deixando-a mais flexível. Embora haja uma perda na dureza do fio, o ganho de tenacidade torna a faca "usável" e segura. De nada adianta uma faca "hiper-dura" que poderá quebrar ao cair no chão, será muito díficil de afiar e, ainda por cima, poderá quebrar quando mais precisamos dela... em uso!!!!
Usualmente, faço 2 ciclos de revenimento de 1 h a 240 graus no forno de têmpera para o aço 5160 POIS CADA AÇO TEM SUAS PECULIARIDADES e é de suma importância conhecer as características do material com que trabalhamos. Terminado essa etapa é hora de prosseguir com o acabamento da lâmina...
Essa bowie foi lixada à mão até a lixa 600. Após isso segue-se à:

4)MONTAGEM:

A esta altura, além das demais coisas que fazíamos, A guarda de inox já estava pronta (com o rasgo pra encaixe da espiga aberto e no formato, praticamente, final). A peça de chifre já fora perfurada de lado a lado:


O cervo Colorado é bastante apreciado pra cabos de facas. Esta peça possui uma textura e curvatura natural que irá propiciar uma ótima empunhadura. Um Mestre me disse uma vez que se vc não tiver uma boa peça de chifre pra um cabo é melhor usar uma bela madeira. O segredo pra um bom cabo de chifre numa faca é escolher bem. Nesse caso, o diâmetro do chifre tinha, exatamente, a mesma medida do ricaço da faca.... Juntou-se a fome com a vontade de comer...

Uma etapa que o Ian tinha a curiosidade de ver era a fixação de um pomo. Isso foi feito com solda prata, maçarico de Oxi/Glp e uma peça chamada extensor de rosca que o próprio Ian havia me enviado uns meses antes de Salvador:
Base de inox (pomo) com extensor de rosca soldado com Solda Prata
Essa peça é um "cano" sextavado com rosca interna. O parafuso em si é soldado na tang. O comprimento do extensor ajuda na correta fixação do pomo que, como alguns podem imaginar, não é nada fácil de ser fixado de maneira justa (zero de folga)... Foi uma ótima solução pois antes eu soldava uma "porca" que era mais curta e dificultava, sobremaneira, a fixação correta do pomo no cabo.

Embora possa parecer que tudo trancorreu rapidamente... NÃO FOI ASSIM.... Começamos na quarta-feira (tarde e noite) seguindo até o domingo.

Durante este período várias outras coisas foram feitas e vistas... Desenhos de cabos, lâminas, materias diferentes, fixação de cabos, construção de guardas, usinagem de madeira:

Tínhamos que parar de quando em quando em quando pra dar uma arrumada pois o espaço é pequeno:

Além do fato de que, enquanto uma lâmina estava no forno, outras coisas eram feitas:
Hunter de Damasco fixando o cabo
Como vivo pela norma de que "só se aprende a fazer fazendo"... Fomo dando asas a criatividade tentando fazer trabalhos cuja confecção servisse de treino e aprendizado... Uma dessas crias foi essa faquinha utilitária:
Na qual utilizamos aço 52100 laminado com pouco mais de 3 mm que me foi fornecido pelo amigo Emilcio de Campinas. A faca foi construída como as pexeiras onde parte da tang é inserida no cabo e pinado. Pra essa classe de faca é bastante satisfatório. O jacarandá, quem diria, é da Bahia mesmo... E a bainha de couro bovino.

Ao final desse processo (no domingo) tinhamos a mesa com uma produção bastante boa com peças em diferentes estágios de manufatura

O GRANDE FINAL:

 Bem... nesse momento vou mostrar-lhe a peça que, de fato, nos deixou orgulhosos de tê-la conseguido terminar:





E como não poderia deixar de ser... a foto do orgulhoso proprietário/criador/aluno com a sua faca "nascida e criada em Garanhuns"
Espero que tenham gostado deste post.

Um abraço a todos e Voltem Sempre.